COPOM e a Batalha Fiscal: Por Que a Política Monetária Pede Socorro?

            



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Análise da Ata da 271ª Reunião do COPOM: A Persistência da Política Monetária Contracionista e o Peso da Política Fiscal

A Ata da 271ª Reunião do Comitê de Política Monetária (COPOM) do Banco Central do Brasil, realizada em 17 e 18 de junho de 2025, revela uma postura cautelosa e um compromisso com a continuidade de uma política monetária significativamente contracionista por um período prolongado. 

Tempo Prolongado e Razões da Política Monetária Contracionista.

A necessidade de uma política monetária restritiva por um "período bastante prolongado" é um ponto central da ata. Existem algumas razões para essa persistência. Primeiramente, a inflação cheia e as medidas subjacentes permanecem acima da meta, e as expectativas de inflação para 2025 e 2026, apuradas pela pesquisa Focus, situam-se em patamares desancorados (5,2% e 4,5% respectivamente, acima da meta). A desancoragem das expectativas de inflação é vista como um fator de desconforto comum a todos os membros do Comitê, elevando o custo da desinflação em termos de atividade econômica. Em um ambiente de expectativas desancoradas, exige-se uma restrição monetária maior e por mais tempo.

Adicionalmente, a resiliência da atividade econômica doméstica e as pressões no mercado de trabalho também contribuem para a necessidade de manter a política contracionista. Apesar de sinais mistos, a atividade econômica e o mercado de trabalho ainda apresentam dinamismo, com ganhos reais de renda e redução expressiva da taxa de desemprego para níveis historicamente baixos. Embora se observe uma moderação gradual no crescimento , o arrefecimento da demanda agregada é considerado "essencial" para o reequilíbrio e a convergência da inflação. A inflação de serviços, em particular, que possui maior inércia, segue acima do nível compatível com a meta, corroborando a interpretação de uma inflação pressionada pela demanda.

O que o BACEN Deseja Informar com o Documento?

Com este documento, o Banco Central deseja informar a sua firme convicção na necessidade de combater a inflação e ancorar as expectativas. Ele sinaliza que, mesmo após um ciclo rápido e firme de elevação de juros, os impactos acumulados da política monetária ainda estão por vir, justificando uma pausa no ciclo de alta para avaliar esses efeitos. No entanto, o COPOM enfatiza que "seguirá vigilante" e não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso seja apropriado. A ata reforça a importância da previsibilidade, credibilidade e caráter anticíclico das políticas econômicas.

Influência da Conjuntura Econômica.

No documento a conjuntura econômica é avaliada sob duas perspectivas:

Ambiente Externo: Permanece adverso e particularmente incerto, principalmente devido à política econômica nos Estados Unidos, especialmente suas políticas comercial e fiscal. A volatilidade de ativos e o acirramento da tensão geopolítica (como o conflito no Oriente Médio) adicionam incerteza e exigem cautela dos países emergentes. As condições financeiras globais e a resiliência dos bancos centrais na busca pelas metas de inflação são elementos cruciais.

Cenário Doméstico: Apresenta sinais mistos, com alguma moderação no crescimento, mas ainda com dinamismo em setores menos sensíveis ao ciclo econômico (como a agropecuária). O mercado de trabalho se mantém dinâmico, suportando o consumo e a renda, embora com alguma desaceleração nos rendimentos. O mercado de crédito, por sua vez, tem mostrado inflexão, com elevação das taxas de juros e menor apetite ao risco, mas o crédito direcionado se manteve mais resiliente.

Cenários e Análise de Risco.

O cenário prospectivo de inflação é considerado desafiador. O COPOM avalia que os riscos são mais elevados que o usual, tanto para alta quanto para baixa da inflação.

Riscos de Alta: Desancoragem prolongada das expectativas de inflação ; maior resiliência na inflação de serviços ; e uma conjunção de políticas econômicas externa e interna com impacto inflacionário maior que o esperado, por exemplo, via câmbio persistentemente depreciado.

Riscos de Baixa: Desaceleração da atividade econômica doméstica mais acentuada ; desaceleração global mais pronunciada ; e redução nos preços das commodities.

Condução da Política Monetária e Razões da Decisão.

O COPOM optou por elevar a taxa básica de juros em 0,25 ponto percentual, para 15,00% a.a.. A decisão é justificada pela resiliência da economia, que dificulta a convergência da inflação à meta e demanda maior aperto monetário. No entanto, o Comitê reconheceu que o ciclo de elevação anterior foi rápido e firme, e grande parte dos impactos ainda está por vir. Por isso, a estratégia é interromper o ciclo de alta para observar os efeitos acumulados e avaliar se a taxa de juros corrente será suficiente para assegurar a convergência da inflação, mantendo-a em patamar significativamente contracionista por período prolongado.

A Responsabilidade da Política Fiscal na Decisão do COPOM.

A influência da política fiscal é um ponto de destaque e de preocupação explícita na ata, com o COPOM acompanhando "com atenção como os desenvolvimentos da política fiscal impactam a política monetária e os ativos financeiros". Há uma clara sinalização de que a política fiscal tem um impacto tanto de curto prazo (estímulo à demanda agregada) quanto de médio prazo (prêmio a termo da curva de juros).

O documento defende que uma política fiscal "contracíclica e que contribua para a redução do prêmio de risco favorece a convergência da inflação à meta". O debate recente sobre a dimensão estrutural do orçamento fiscal e a redução de gastos tributários é visto como algo com potencial para "afetar a percepção sobre a sustentabilidade da dívida e de ter impactos sobre o prêmio da curva de juros".

Crucialmente, o Comitê reforça a visão de que "o esmorecimento no esforço de reformas estruturais e disciplina fiscal, o aumento de crédito direcionado e as incertezas sobre a estabilização da dívida pública têm o potencial de elevar a taxa de juros neutra da economia, com impactos deletérios sobre a potência da política monetária e, consequentemente, sobre o custo de desinflação em termos de atividade". Essa passagem é particularmente incisiva, colocando a política fiscal como um fator determinante para a eficácia da política monetária. O COPOM reitera a "necessidade de políticas fiscal e monetária harmoniosas".

Em suma, a ata do COPOM deixa claro que a persistência da política monetária contracionista e a necessidade de juros elevados por tempo prolongado são reflexos não apenas da conjuntura econômica global e doméstica, mas também, e de forma significativa, das incertezas e da percepção de falta de disciplina na política fiscal. A estabilização da dívida pública e o esforço em reformas estruturais são apresentados como cruciais para reduzir o prêmio de risco, diminuir a taxa de juros neutra e, assim, tornar a política monetária mais potente e menos custosa em termos de impacto sobre a atividade econômica. A bola está, em grande medida, no campo da política fiscal para que o país possa desfrutar de um cenário de inflação controlada com menor custo para o crescimento e o emprego.




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